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Feiras, sebos e ferros-velhos

  • 23 de Novembro de 2025

Shoppings center e supermercados são um saco, todos iguais com os mesmos produtos, em toda parte. Já morei em cidades do interior e do exterior e em todas elas havia feiras nos bairros, de frutas, legumes, flores, embutidos e queijos. Salvador tinha feiras no Porto da Barra, no Forte de São Pedro, na Preguiça, na Rampa do Mercado, na Água de Meninos, no Porto da Lenha no Bonfim e na Ribeira abastecidas pelos saveiros que vinham do Recôncavo. Tudo acabou.

Muitas cidades têm feiras de objetos usados, conhecidas como feiras das pulgas. Cusco, onde morei durante seis meses, tem o Baratillo. Em Roma fui muito a Porta Portese, onde se podia encomendar uma estrela do Mercedes Benz 1943 e receber a joia na semana seguinte. Comprei ali objetos lindíssimos, inclusive um jarrinho da Magna Grécia perdido entre centenas de imitações num baú.

Em Lisboa, na Feira da Ladra, comprei mochilas militares descartadas da guerra colonial. Em Madri ocorre o Rastro, nos domingos. Quando vou a Londres gosto de adquirir ferramentas antigas em Portobello Road Market, um conjunto de sobradinhos interligados pelos fundos. Nova York, além do Union Square Greenmarket, tem o Brooklin Flea e Paris, o Marché aux puces, em Saint-Ouen, que se transformou num imenso antiquário de preços exorbitantes.  

No Bairro Alto de Lisboa, há sebos chamados de alfarrabistas, onde eu passava horas garimpando livros, mapas, gravuras e postais antigos até o anoitecer e jantar no refinado Farta Brutos de comida alentejana. Os brechós não são minha especialidade e não sei citar os dessas cidades. Isto é a cultura urbana que gosto de curtir, mais que visitar museus com guias falando pelos cotovelos e que não nos deixam apreciar e fotografar os objetos.

Salvador também já teve bons antiquários, sebos, restaurantes de comida de santo. Tudo acabou. São Paulo, a grande metrópole brasileira, tem feiras periódicas nos bairros, onde se pode saborear pastéis variados com caldo de cana e padarias que servem uma boa média com pão na chapa e os vizinhos se encontram para conversar. Durante 40 anos se realizava no vão livre do MASP, aos domingos, uma feirinha de antiguidades que foi transferida este ano para o Parque Mário Covas. Salvador não tem mais feiras nem padarias.

Para encontrar alguma coisa interessante tenho que ir aos ferros-velhos da San Martin e Suburbana, correndo risco de vida. Salvador virou um nó rodoviário com viadutos inúteis sem passeios, praças abandonadas e avenidas transformadas em camelódromos. Há dinheiro para fazer viadutos regressivos e de três andares, mas não há dinheiro para fazer mercados populares ou parques urbanos. A cidade está sendo intoxicada pelo concreto. É preciso purificar Salvador, como Caetano pedia para purificar o Rio Subaé:

Mandar os malditos embora [...] / O horror de um progresso vazio/ Matando os mariscos e os peixes do rio/ Enchendo o meu canto/ De raiva e de pena.


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