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As cruzes invisíveis de nossas estradas

  • 18 de Janeiro de 2026

No início do ano as TVs publicam estatísticas do ano que passou. Um dos dados mais alarmantes é o número de mortos e feridos nas estradas e no tráfego urbano. As estatísticas oficiais não são completas, demonstrando o pouco apreço pela vida humana. Prefiro os dados da Fundação Dom Cabral. Segundo esta fonte, morreram, em 2024, nas nossas estradas 4.995 e ficaram feridas 11.916 pessoas com um custo alto para o SUS. Segundo outra fonte, 1.000 pessoas morreram em 2025 em acidentes de tráfego nas nossas cidades.

Muitas dessas mortes se devem à imprudência dos motoristas, mas uma parte considerável se deve à deficiência das nossas rodovias e ao sistema de fiscalização. Faltam sinalizações, canteiros centrais e guardrails e sobram buracos. Os acostamentos estreitos de nossas estradas não permitem que os veículos parem e livrem a pista de rolamento. Com raras exceções, as nossas estradas não têm uma terceira pista em subidas para caminhões e ônibus mais lentos induzindo os carros a invadir a contramão para ultrapassá-los em lombadas. O exame de habilitação para dirigir carro (CNH B) está inteiramente caduco, exigindo o teste inócuo de baliza, mas não a habilidade dos candidatos em dirigir em estradas acidentadas, alagamentos e com a queda de fios elétricos em seus carros.

O regime de trabalho de motoristas de carretas é absurdo. Muitos deles dirigem por 24 horas tomando Pervitin para poderem pagar as prestações escorchantes de seus veículos e acabam dormindo ao volante. A maioria deles não são treinados para conduzirem veículos com cargas móveis, como líquidos e areia, e não sabem acionar o freio motor de seus caminhões para diminuir o impacto com outros veículos. Em descidas longas, nos países desenvolvidos, há escapes com brita solta para parar caminhões que perdem o freio, mas aqui não.

Na aviação civil se reduziram radicalmente os acidentes exigindo que os aviões fizessem manutenções preventivas periódicas e os pilotos fossem submetidos a avaliações e treinamentos regulares. Não há nenhum sistema de controle semelhante à nossa frota de veículos pesados e motoristas profissionais. Caminhões rodam com contêineres soltos e cargas mal amarradas. Ônibus circulam sem obrigar seus passageiros usarem cintos de segurança. É preciso criar em nossas estradas pontos obrigatórios de inspeção de caminhões e de dormida segura para seus motoristas.

Nas cidades os problemas são outros. Em cerca de 16 estados a frota de motos já é maior que a de carros e a faixa exclusiva para elas é no máximo de 80 cm de largura. Se junta a isso a baixa remuneração dos moto-delivers que para sobreviverem têm que costurar o tráfego de outros veículos. As maiores vítimas do trânsito urbano são motociclistas com muitas mortes e perdas de pernas e braços. Essas mortes nas estradas e nas cidades são invisíveis, não têm cruzes, são dados frios estatísticos, mas como doem!


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