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Palhaços , mascarados e colombinas

  • 15 de Fevereiro de 2026

Estou em Maragogipe, onde ainda sobrevive o Carnaval da minha juventude, com mascarados, palhaços, arlequins, pierrôs e pombinhas (colombinas). Naturalmente esta crônica foi escrita há uma semana atrás, mas refletindo sobre as mudanças por que tem passado o Carnaval de Salvador. A festa que o antropólogo Roberto DaMata analisa no seu clássico Carnavais, Malandros e Heróis era esta que ainda sobrevive em Maragogipe, do rito de passagem e da transgressão. Carnaval em que os oprimidos e até mesmo os “Caxias”, que eram obrigados pelas convenções sociais a defender a “ordem”, assumiam durante cinco dias os papéis que gostariam de ser.

A pergunta clássica “Você me conhece?” tão frequente entre os mascarados daquela época é a própria expressão dessa mudança do papel social. Heróis se transformavam em malandros, machões assumiam sua feminilidade, marginalizados se transfiguravam em príncipes com uma coroa da lata. Mascarados e pessoas vestidas de palhaços, índios, mandus, amigos folhagens e diabos, na verdade não estavam se fantasiando, pelo contrário, estavam se despindo da persona carrancuda que eram obrigadas a representar o ano inteiro com paletó e gravata, salto alto e macacão para assumirem seus egos naturais e lúdicos.

O Carnaval tradicional de Salvador teve um divisor de águas em 1950 com o aparecimento do trio elétrico de Osmar e Dodô. Surgiu então a indústria carnavalesca soteropolitana exigindo investimentos milionários em jamantas de som e luzes. É mais ou menos nessa época que as autoridades policiais proibiram os mascarados no Carnaval de Salvador. Com a industrialização do Carnaval e proibição dos caretas desaparecem também as fantasias e surgem as mortalhas e os abadás customizados. Longe da capital política e da repressão e Das Kapital Maragogipe conseguiu preservar o carnaval da libertação das convenções sociais.

Transferido o Carnaval do centro de Salvador para o percurso Farol-Ondina surgiram os camarotes das celebridades com garçons e sommeliers em que turistas milionários assistem de cima, sem se misturarem, o desfile dos blocos com cordas de isolamento, seguranças e carros de apoio e os pipocas pulando por conta própria. O Carnaval de Salvador não é mais o da transgressão de que falava Roberto DaMatta, há 45 anos atrás, é um dos Carnavais mais segregadores e elitizados do país. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o Carnaval de rua, sem blocos com cordas, abadás customizados e camarotes, está voltando. No Recife, os mamulengos com suas sátiras sociais nunca desapareceram. O Carnaval de Salvador para voltar a ser uma festa popular tem que se libertar dessa indústria turística financiada pelas cervejarias.    

Por sorte ainda resta na Bahia o carnaval de Maragogipe, com palhaços, caretas e filarmônicas


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