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A morte de Orelha

  • 01 de Março de 2026

O espancamento bravo de um cachorro de rua no balneário Praia Brava em Santa Catarina, por um grupo de adolescentes virou uma novela na mídia nacional. Nada parece mais importante no noticiário do país. Lógico os pets passaram a ser membros das familiais e em muitos cemitérios são enterrados com seus donos. Quadro mulheres são vítimas de feminicídio por dia no país e a mídia só comunica os que dão Ibope. Socorrido por uma clínica veterinária, Orelha foi submetido a uma eutanásia, embora esta pratica, e nem mesmo a morte assistida, seja permitida no país.

Pessoas em situação de rua têm sido incendiados a mando de comerciantes higienistas sociais e a polícia não consegue identificar seus autores. Oficialmente existem 3,5 milhões de drogados em São Paulo dormindo nas ruas, embora a OMS estime em 12 milhões. O Pe. Júlio Lancellotti que era conta a arquitetura hostil da Prefeitura contra essas pessoas, colocando pedras debaixo dos viadutos para elas não dormirem, foi amordaçado pela Arquidiocese de São Paulo.

A Polícia e o Ministério Público de Santa Catarina abriram inquérito para investigar a morte do cachorro. Ninguém se importa que cerca de 1,65 milhões de crianças e adolescentes trabalhem e não vão à escola. A Justiça de Minas Gerais acaba de inocentar um marmanjo de 35 anos que estuprou uma menina de 12 anos e a mantem como sua parceira sexual, com o apoio da mãe.

Segundo a Polícia Catarinense, Orelha foi espancado por um menor de 15 anos, embora seus companheiros não fizessem nada para coibir a chacina. Os pais do adolescente autor das pauladas não interromperam seu passeio a Disneyworld que já estava programado. Era preciso preservá-lo dessa gente que fala e que bate sem ter prova de nada. Como Jair Rodrigues dizia: deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá! Mas a prisão do adolescente em Guarulhos ao retornar dos States foi outro espetáculo televisivo.  

A morte de Orelha foi a principal reportagem no Fantástico. Nada parece mais importante no país que sua morte. Nem o escândalo do Banco Master envolvendo dois ministros de Supremo Tribunal Federal e um banco estatal de Brasília, as Emendas Parlamentares sem transparência e os penduricalhos que a Câmara aprovou para seus funcionários, do Senado e do Tribunal de Contas, com salários estratosféricos, num país que ainda existe condições de trabalho equivalentes à escravidão. Entre 1995 e 2023, cerca de 63,4 mil trabalhadores foram encontrados nessa condição.

O Governo de Santa Catarina acaba de aprovar a Lei 19.726 sobre tratamento a cães e gatos comunitários, eufemismo para designar animais abandonados na rua, sem teto, nem comedouro. O caso Orelha pode virar novela da Globo. Nelson Rodrigues tinha razão, nós somos um povo sem consciência política e com Complexo de Vira Lata.


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