Artigos de Jornal
Rififi no cais do porto
Não me recordo quem me contou. Na década de 1940, Salvador estava isolada do resto do país. Não havia a rodovia Rio-Bahia e as ligações com o Sul eram feitas só pelos navios da Companhia Navegação Costeira, os famosos Itas, cantados por Dorival Caymmi. A aviação comercial estava engatinhando e só levava passageiros. Os Correios e Telégrafos funcionavam muito mal. Para se mandar uma mensagem era preciso ir ao Comércio e enviar um telegrama pelo cabo submarino da Western Union.
Nestas circunstâncias, mandar uma encomenda para qualquer lugar era um drama. Era preciso conhecer alguém que fosse embarcar em um Ita, e pedir o favor de levar o pacote. O Sr. Arnóbio, carioca residente em Salvador, tinha urgência em mandar uma encomenda para o Rio de Janeiro, mas não conhecia ninguém que fosse para lá. Depois de uma grande procura, descobriu que um amigo de um seu conhecido iria para o Rio de Janeiro. Arnóbio só conseguiu falar por telefone com o viajante, de sobrenome Dantas, depois de alguns dias e combinar a entrega da encomenda no seu embarque.
Os telefones da Cia. Linha Circular funcionavam pessimamente. Milton Santos dizia que o maior benefício que a empresa fez à Bahia foi criar 20.000 empregos, o mesmo número de linhas telefônicas, para uma cidade de 290.000 habitantes. Toda casa, escritório ou loja tinham de ter um empregado para esperar o sinal do telefone. Quando após horas se conseguia o sinal a linha estava ocupada, pois do lado de lá tinha alguém esperando também o sinal com o fone fora do gancho.
No dia marcado lá estava Arnóbio no porto para entregar a encomenda, que parecia ser de um presente para alguma celebração familiar, talvez um bolo de aniversário. Dantas achou indelicado perguntar o que havia dentro. Arnóbio disse a Dantas que seu irmão iria pegar a caixa no seu desembarque e foi direto ao Western Union mandar um telegrama dando o nome do portador, do navio, dia e hora da chegada. Dantas acomodou a mala e a caixa debaixo do beliche do camarote que compartilhava com mais três companheiros.
Ao desembarcar no Rio, Dantas viu um senhor com uma legenda com seu nome. Se aproximou, se apresentou, se abraçaram e conversaram animadamente sobre a viagem, que jogou muito e a única diversão à bordo era ver os marinheiros jogarem abóboras em chamas que os tubarões engoliam ainda no ar. Como o irmão de Arnóbio não via senão uma mala, agradeceu o favor dele ter trazido a encomenda e perguntou se ela tinha ficado a bordo.
Dantas parcimoniosamente explicou que infelizmente...
- Como, como? Não entendi? Não é possível, o senhor está louco! Louco!
- O que o senhor faria, deu formiga, os companheiros do camarote reclamavam, e fui obrigado a jogar a caixa no mar.
- O senhor jogou os restos mortais de papai para os tubarões? Seu filho da puuuuta!!!
Boom!!! Bang!!! Boom!!!