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Debaixo do Trópico de Cancer
Pode parecer estranho a história que vou contar, porque não conheci o personagem principal. Tendo assistindo um Youtube sobre sua vida, resolvi revelar. Depois de um início brilhante, na década de 1950, aquele ator se transformou em uma figura intratável, narcisista com uma vida pessoal e familiar conturbada. Em meados dos anos 1960 nenhum cineasta queria mais o dirigir. Mas um diretor italiano cismou em fazer um filme com ele. Sabia que ia ser difícil, mas convenceu um produtor a correr o risco e reuniu um grupo de atores e técnicos que aceitou enfrentar o desafio.
O filme seria rodado numa ilha do Caribe. Começaram a filmagem, mas a nossa estrela se mandava sem aviso para Nova York para consultar seu psicanalista e passava semanas sem dar notícia. Ninguém aguentava mais seus caprichos. A equipe queria parar de trabalhar e voltar para casa. O diretor tentava pacificar o pessoal e terminar o filme.
Nesse momento, ele soube que ia passar ali perto um navio-escola americano e pensou que poderia ser interessante fazer uma confraternização para quebrar o amargo far niente. O cônsul americano local se entusiasmou com a ideia e entrou em contato com a Marinha americana para promover o encontro dos marines com a equipe italiana e a grande estrela americana.
O roteiro do filme era inspirado na história do Haiti e para despistar era ambientado numa colônia espanhola produtora de açúcar. Um agente britânico tentava fomentar uma rebelião escrava para promover a independência do país e abrir o mercado aos seus manufaturados. Era o filme “Queimada!”, de 1969, dirigido por Gillo Pontecorvo e tendo como estrela principal Marlon Brando.
Enquanto o navio se dirigia à ilha, alguns oficiais convidaram suas esposas a virem à ilha para participar da confraternização. A festa começou com uma banda de mariachis tocando boleros, com muita bebida e comida. Lá pelas tantas entrou Marlon Brando. A esposa de um oficial tentou fotografar o ator. Os seus seguranças avançaram sobre a mulher para tomar a máquina e a derrubaram no chão. Aí o pau quebrou, cadeiras voando pelo ar, enquanto a banda animava a pancadaria ao som dos mambos de Perez Prado de Cuba.
Depois da surra levada pelo star, Pontecorvo conseguiu terminar o filme, que teve boa aceitação da crítica e do público e reabilitou Marlon Brando em Hollywood. Quem me contou essa história, que mais parece de Henry Miller, foi a continuísta do filme, que anotava como estavam vestidos os personagens para dar continuidade à filmagem em outro ambiente. A conheci em 1970, quando fazia doutorado na Itália.
Três anos depois, Brando terminou “O Poderoso Chefão” dirigido por Francis Coppola, de estrondoso sucesso, que foi o coroamento de sua brilhante carreira. Assim termina esta história que poucos de seus biógrafos conhecem.